sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Fernando Pessoa

II - Segunda Parte: Mar Portuguez
 
 
SEGUNDA PARTE / MAR PORTUGUEZ
Possessio maris.

       I. O INFANTE 
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te portuguez..
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

II. HORIZONTE 
O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

III. PADRÃO 
O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

IV. O MOSTRENGO 
 mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

V. EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS 
Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim.  Dobrado o Assombro,
O mar é o mesmo:  já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.

Vl. OS COLOMBOS 
Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.
Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

VII. OCIDENTE 
Com duas mãos — o Ato e o Destino —
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trêmulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.

VIII. FERNÃO DE MAGALHÃES 
No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras desformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam na morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto
— Cingiu-o, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.

IX. ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA 
Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus, 
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovôes, 
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.

X. MAR PORTUGUÊS 
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

XI. A ÚLTIMA NAU 
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol azíago
Erma, e entre choros de ânsia e de presago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.

XII. PRECE 
Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia — 
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!
 
 
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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Concurso de Poesia



"O MAR... "Resultado de imagem para icon do mar

Está a decorrer no nosso Agrupamento, dinamizado pela Biblioteca da ESSJT, um concurso de poesia subordinado ao tema "O Mar".

Vejam o filme que aqui anexo sobre o fundo do mar, apreciem as imagens e sintam o Mar na sua plenitude. Imaginem as sensações que pode despertar em nós, apreciem as cores, a multiplicidade de seres, a luta pela sobrevivência...
O que vos lembra uma e outra imagem?
Descrevam, em verso, o que veem. Enriqueçam o vosso texto poético com adjetivos, recursos expressivos, sensações... Não deixem escapar nenhum detalhe  e deem ao poema o título que acharem mais adequado.

Podem consultar o Regulamento do concurso na nossa disciplina, on line, na plataforma do agrupamento e enviar os poemas para o espaço que aí criei. 

Sejam ORIGINAIS!



O fundo do Mar

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Concurso de poesia - Faça lá um poema




O Mar de Luísa Ducla Soares

Este é o mar

onde os barcos viajam,

os peixes moram,

os golfinhos saltam,

as baleias lançam repuxos,

as crianças nadam,

os jardins são de coral

e sabem a sal.

Este é o mar

que se esgota em esgoto,

se lixa em lixo,

o das marés negras,

das redes de arrasto,

dos rastos de sangue,

dos cemitérios nucleares,

dos muitos azares.

Este é o mar.

Quem é que entende a canção das ondas? 
Luísa Ducla Soares

A Nau Mentireta - Luisa Ducla Soares

«Lá vai a Nau Mentireta
Que tem muito que contar,
Já passa mais de ano e dia
Que anda nas ondas do mar.
(…)
Junto da costa africana
 O Gigante Adamastor,
Como estava constipado,
Pediu-lhe um cobertor.
 (…)
Partiram para a Guerra Santa,
 Só viram a guerra errada,
Em nenhuma havia santos,
 E todas tinham pancada.
(…)
 Quando apertava o calor
 Foram à Índia distante.
Para fazer de chuveiro
Compraram um elefante.

Descobriram no Brasil
O Carnaval e o samba.
De tanto que lá dançaram
Ficaram de perna bamba.
(…)
 Já vêem terras de Espanha,
 Areias de Portugal,
Três burros tocando flauta
 Debaixo dum laranjal.»

Luisa Ducla Soares, A Nau Mentireta, 1991

HISTÓRIA DO SR. MAR - Matilde Rosa Araújo

HISTÓRIA DO SR. MAR
Deixa contar…
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda…
Com muita onda…
E depois?
E depois…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
E depois…
A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe…

Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila

Mar - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

MAR
 I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
 II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exaltação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.
 in Poesia, 1ª ed 1944

Mar - Miguel Torga


Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

in "Poemas Ibéricos"


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João Braga " Mar", poema de Miguel Torga.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Quem somos?

 Somos a Equipa Operacional , do Agrupamento de Escolas de S. 

João da Talha, da Ação de Melhoria que visa : 


Melhorar a articulação horizontal e vertical entre os vários ciclos, promovendo o trabalho em equipa, de partilha e de orientação